“Até já”

Venho escrever esta carta para infelizmente lhe contar a minha história, o porque estar nesta situação aqui em Hong Kong.

Eu sou portuguesa, 40 anos, tenho 4 filhos um neto com 2 anos. Vivo em Lisboa desde que nasci.

Eu trabalhava numa universidade na área de cozinha, onde fazia comida para os alunos e professores, gostava tanto da minha comida como de mim, da minha disposição com eles. A impressa para a qual trabalhava fui a concurso e perdeu, sendo assim infelizmente todos que trabalhavam para essa impressa sermos mandados embora, incluindo eu, e fiando desempregada….

Durante uns 3 ou 4 meses, com as economias conseguia pagar despensas e comida da minha casa… As coisas começaram a ficar difícil, pois eu sou a única que lá em casa sou o pilar para todo…. Infelizmente já a minhas poupanças acabarem, só via as despensas da casa acumularem por vezes ter de pedir ajuda em alimentos para os meus.

Sendo assim.… eu tenho um casal amigo que vive em França, amigos de longa data no qual vinham de ferias muitas vezes a Lisboa Portugal. E sempre estávamos juntos, quando eu também trabalhava e tinha possibilidade também ia a França os ver…

Em uma das vezes que eu foi a França, conheci …. Eles me apresentaram um amigo em um jantar…. Trocamos telefone e conversávamos por SMS, quase todos os dias, assim ambos irmos desabafando sobre as nossas vidas…. Onde ele me contou com sinceridade a vida que tinha e levava em França…… vida do trafico. Não questionei, pois, cada um escolhe e tem a vida que quer… nisto até algumas vezes me disse…. Se eu quisesse dinheiro que podia trabalhar para ele, nessa vida. Eu respondia que não, mas sempre me tentava em modo brincalhão.

Numa das nossas conversas; eu desabafando desesperada pois as minhas despensas estavam altas demais e o resultado da minha procura de emprego não estava boa, ele, esse meu amigo me veio outra vez com a mesma conversa: precisas de dinheiro…. Trabalha comigo e nada te falta.

Eu sem pensar de momento só querendo achar solução para as minhas despensas, disse lhe: Explica-me então como é isso.

E me explicam dizendo valores, o que tinha que fazer, para onde ia, como o ia fazer…. Quantidades, e que era muito seguro, que nada ia acontecer…. Pronto eu disse que sim.

A última palavra ao sair de Portugal foi até já, nada sabiam.

Bem e lá foi eu dia 16 de novembro de 2023, tinha voo de Portugal para Orly França, cheguei ao aeroporto por volta das 22h e alguma hora França. Tinha ele a minha espera cá fora na zona dos táxis onde apanhamos o táxi os dois juntos.

O destino foi o nome que ouvi “Gare du Nord” um sítio, em França cheguei, foi ali fomos a uma loja, a única aberta naquele horário, onde comprou me hambúrguer, suco e batatas para comer levei para o quarto da pensão, na Gare du Nord, mesmo no centro perto do estacão do metro me deixou, aí na pensão sozinha indo embora…. Dizendo que no dia seguinte voltava na hora do almoço, que apenas só ia ficar ali uma noite. Assim foi…. Uma zona um pouco assustadora, muito movimentada de noite…. Isto visto na janela da pensão.

No dia seguinte como me disse ele, lá estava, por volta da sa hora do almoço…. Me disse para ir na pensão, buscar as minhas coisas, a minha mala, que íamos almoçar e depois me ia ditar em outro lugar para trabalhar. No almoço me explicou como eu ia “trabalhar”, ingerindo, aí assustei me e lhe disse, não é seguro tu consegues.

Final do almoço apanhamos um táxi novamente e destino foi B&B, uma pensão perto do estacão de comboio da Gare du L’Est onde tinha um McDonalds perto e mesmo ao lado um restaurante chines…. Aí me deixou, dizendo já volto com mais coisas.

Mais ou menos final da tarde já noite…. Apareceu, em um saco de plástico, estavam muitas embalagens redondas, parecia bolotas (o formato)… era o que eu ia ingerir. Eu contei e eram umas 100 bolotas… cápsulas de dez gramas cada uma.

Mais ou menos final da tarde já noite, apareceu, em um saco de plástico, estavam muitas embalagens redondas, parecia bolotas (o formato) também uns comprimidos, um preservativo, água, uns doces… era o que eu ia ingerir. Eu contei e eram umas 100 bolotas… cápsulas de dez gramas cada uma, assim me disse me falando como tinha de ingerir, e medicação que tinha que tomar, e que para estar descansada que ele ia ficar ali me vendo ingerir, caso algum me aconteces, e assim foi.

Me falou em voltar, pois eu vinha de França para Hong Kong, entregava as cápsulas cocaína a uma pessoa e na volta a França ele me pagava os 7mil euros que disse.

Assim foi, ingeri, ele sempre ali, olhando, ingeria sempre com receio de rebentar, esteve com medo, chegou o momento que ingeria uma e o estomago expulsava vomitando umas 7 ou 8. Foi um momento muito difícil, tanto que apenas consegui ingerir 68 cápsulas, isto durante a noite, coloquei uma quantidade na vagina.

No dia seguinte lá fui em sozinha sem dormir, cansada demais, cheia de medo para o aeroporto de Charles de Gaulle onde me esperava um voo de 13 horas. Dentro do voo, a doer me muito o estomago, mal consegui comer e aí dormir até Hong Kong o meu destino, passei tudo bem…. Mas fui encostada no meio de algumas horas me fizeram uma revista corporal, no qual viram o que tinha na vagina, e assim foi detida, cheia de medo, longe da minha família, dos meus filhos, sem saber o tempo que possa ficar aqui.

Sei e tenho noção do erro que cometi da dor que neste momento estou a dar a minha família, aos meus filhos ao meu companheiro, a minha querida mãe ao meu pequeno neto. Rezo todos os dias para que me perdoem um dia, e que não o fiz para lhes deixar esta dor. A última palavra ao sair de Portugal foi até já, nada sabiam.

I know how wrong I was. Every day, I pray and will keep praying for forgiveness, as I am so terrified and so afraid.

Cada dia que passa fica mais difícil para mim, pois nada sei da minha família, principalmente dos meus filhos. Não está fácil. Todas as noites rezo e peço a deus para minha família “meus filhotes” estarem bem, pois sem saber nada tenho coração apertado, choro todas as noites, peço uma notícia deles. De mais a noite da fome e assim me deito produtos de higiene, nada tenho, não está fácil, neste país ninguém tenho.

Tenho a minha mãe em Portugal, já com certa idade e isto que me aconteceu o ficar aqui detida, ela não está bem, e nas cartas fala em não quer morrer, sem antes ver a sua filha. Tenho medo, pois conheço a minha mãe e sinto que não é mentira, minha mãe não esta bem. Alem de ela tenho 4 filhos, idades entre 15-24, e um neto com deus anos.

Ao qual apesar de o pai estar com eles, e eles já serem grandes, eu sou o pilar deles, da minha casa estão sem chão.

E no meio de isto, vos digo aconselhando a nunca, mas nunca fazer isto “sermos mulas” nenhum dinheiro o vale, a distância, o sofrimento da nossa família. E alem de todo “onde não pensei” a nossa saúde. Detida desde 10 novembro 2023.

Pessoal nunca o façam…. Pensem.